quarta-feira, 08 setembro 2010
 
 
 
Julho 2010

Qualidade na TV: o que é? Existe mesmo?
Michel Sitnik

Por: Michel Sitnik
Foto: Stock.xchng

Que falar sobre TV é um dos assuntos preferidos dos brasileiros, todos sabemos. São comuns os bate-papos discutindo os rumos de uma novela ou o castigo que as vilãs merecem. Até aí, nada de inesperado. Ao contrário, é tudo o que um autor de novela mais deseja. Mas você já reparou que quase sempre uma conversa assim acaba caindo em avaliações sobre “qualidade”? E que quase sempre o veredicto é uma condenação? Parece até contraditório, mas pessoas comentam sobre programas que elas assistem e em seguida condenam a “falta de qualidade” desses mesmos programas! Mas, afinal, o que é qualidade? Como se mede esse conceito?

 Na indústria em geral, é comum ouvir que o que tem qualidade é o que atende demandas da clientela ou que tem boa relação custo-benefício. Mas como aplicar um conceito assim à TV? Certamente boa parte dos produtos mais criticados tem uma ótima relação custo-benefício para seus produtores e atende a uma demanda de público considerável, refletida nos índices de audiência. É quando comparamos com outros produtos culturais que começa a ficar evidente um certo preconceito contra a televisão. Repare só: se você está lendo um livro qualquer, qual a reação de quem vê? Você parecerá um intelectual, uma pessoa culta, certo? Alguém irá questionar a qualidade do livro? Se ele era educativo? Se foi uma perda de tempo? Se ele continha cenas de sexo, nudez ou violência? Não! Livros são livros! No cinema isso também acontece, afinal assistir a um filme é um programa cultural, que pode nos colocar em contato com obras artísticas de grande relevância. O filme tem sexo, tem violência? Quase sempre tem – qual a obra dramática que pode prescindir desses recursos com tanta facilidade – mas isso não importa, no cinema, tudo é arte.

Por que, então, na TV os programas são denunciados às campanhas contra a baixaria (aliás, existem campanhas contra a baixaria nas outras mídias?) por critérios como “erotismo”, “violência”, “palavras de baixo calão”? Outro preconceito comum à televisão é quando o conceito de qualidade está atrelado a uma superioridade técnica. Ou seja, câmeras, estúdios e ilhas de edição ultramodernos, vinhetas computadorizadas nas melhores máquinas e uma transmissão potente significam TV de qualidade como um todo? Se formos por esse caminho, então, corremos um sério risco de jogar no lixo uma série de experiências bastante relevantes no desenvolvimento da linguagem audiovisual televisiva, já que quase todas as inovações surgiram fora dos grandes centros de produção que, mais engessados e com mais riscos a serem evitados, acabam não tendo tanto espaço de experimentação como produtoras e emissoras menores e com menos a perder mas, ao mesmo tempo, com menos tecnologia a oferecer. Em termos de padrão estético também fica complicado julgar a qualidade como sinônimo de uma padronização baseada em um visual limpo ou comum a uma classe média alta, como se obras de estéticas mais sujas, coloridas ou pobres também não tivessem seu valor cultural.

Por fim, vale a pena discutir um dos principais critérios de qualidade que têm aparecido no julgamento da programação: a educação. Quem nunca ouviu uma voz indignada contra algum programa, questionando “o que este programa ensina de bom?”. Mas quem disse que televisão é escola? Que a boa televisão é a que ensina conteúdo? É fato que a TV é um excelente veículo para a educação. Quanto mais ela puder ser usada com esses fins, melhor. Mas há ressalvas: a primeira é que a televisão possui uma linguagem própria, esperada pelo público, de forma que a educação na TV jamais deve ser encarada como uma aula gravada, mas sim como a apropriação dos recursos de linguagem audiovisual sobre determinado tema. O segundo ponto é que mesmo o que não foi produzido com a intenção de ter uma serventia educativa formal pode ser de grande valor simplesmente por trazer novos debates, olhares e culturas, ou seja, contribuir com a pluralidade – isso sim, algo que poderia também ser lembrado nos debates sobre qualidade.

 Dentro desta diversidade, sem julgamentos morais, respeitando os gostos mais “bregas” e dando espaço para a liberdade de expressão popular, é claro que sempre se corre o risco de determinados excessos ou exposição de pessoas. Neste caso, a própria diversidade de programação pode ser uma resposta, porém, mais que isso, a principal resposta pode estar justamente na educação. Não é à toa que um recente campo de estudos, a Educomunicação, tem entre seus pilares a leitura crítica dos meios, ou seja: incluir no próprio ambiente escolar a mídia de massa tal como ela é. Não apenas programas educativos, mas aquilo que as pessoas veem em casa. E enfrentar isso com discussões, análises, desconstruções. Entendendo como os programas são produzidos, as novas gerações estarão mais preparadas para dialogar com a TV. Quem sabe eles próprios não acabam educando a TV, garantindo uma programação plural, com muitas pautas interessantes e estéticas inovadoras?

 

 
Michel Sitnik : Analista de comunicação da Universidade de São Paulo, assessor de Educomunicação da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e professor na área audiovisual da Estácio de Sá UniRadial e Centro Universitário Senac.