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Que
falar sobre TV é um dos assuntos preferidos dos brasileiros, todos sabemos. São
comuns os bate-papos discutindo os rumos de uma novela ou o castigo que as
vilãs merecem. Até aí, nada de inesperado. Ao contrário, é tudo o que um autor
de novela mais deseja. Mas você já reparou que quase sempre uma conversa assim
acaba caindo em avaliações sobre “qualidade”? E que quase sempre o veredicto é
uma condenação? Parece até contraditório, mas pessoas comentam sobre programas
que elas assistem e em seguida condenam a “falta de qualidade” desses mesmos
programas! Mas, afinal, o que é qualidade? Como se mede esse conceito?
Na
indústria em geral, é comum ouvir que o que tem qualidade é o que atende demandas da clientela ou que tem boa relação
custo-benefício. Mas como aplicar um conceito assim à TV? Certamente boa parte
dos produtos mais criticados tem uma ótima relação custo-benefício para seus
produtores e atende a uma demanda de público considerável, refletida nos
índices de audiência. É quando comparamos com outros produtos culturais que
começa a ficar evidente um certo preconceito contra a televisão. Repare só: se
você está lendo um livro qualquer, qual a reação de quem vê? Você parecerá um
intelectual, uma pessoa culta, certo? Alguém irá questionar a qualidade do
livro? Se ele era educativo? Se foi uma perda de tempo? Se ele continha cenas
de sexo, nudez ou violência? Não! Livros são livros! No cinema isso também
acontece, afinal assistir a um filme é um programa cultural, que pode nos
colocar em contato com obras artísticas de grande relevância. O filme tem sexo,
tem violência? Quase sempre tem – qual a obra dramática que pode prescindir
desses recursos com tanta facilidade – mas isso não importa, no cinema, tudo é
arte.
Por que, então, na TV os programas são denunciados às campanhas
contra a baixaria (aliás, existem campanhas contra a baixaria nas outras mídias?)
por critérios como “erotismo”, “violência”, “palavras de baixo calão”? Outro
preconceito comum à televisão é quando o conceito de qualidade está atrelado a
uma superioridade técnica. Ou seja, câmeras, estúdios e ilhas de edição
ultramodernos, vinhetas computadorizadas nas melhores máquinas e uma
transmissão potente significam TV de qualidade como um todo? Se formos por esse
caminho, então, corremos um sério risco de jogar no lixo uma série de
experiências bastante relevantes no desenvolvimento da linguagem audiovisual
televisiva, já que quase todas as inovações surgiram fora dos grandes centros
de produção que, mais engessados e com mais riscos a serem evitados, acabam não
tendo tanto espaço de experimentação como produtoras e emissoras menores e com
menos a perder mas, ao mesmo tempo, com menos tecnologia a oferecer. Em termos
de padrão estético também fica complicado julgar a qualidade como sinônimo de
uma padronização baseada em um visual limpo ou comum a uma classe média alta,
como se obras de estéticas mais sujas, coloridas ou pobres também não tivessem
seu valor cultural.
Por fim, vale a pena discutir um dos principais critérios de
qualidade que têm aparecido no julgamento da programação: a educação. Quem
nunca ouviu uma voz indignada contra algum programa, questionando “o que este
programa ensina de bom?”. Mas quem disse que televisão é escola? Que a boa
televisão é a que ensina conteúdo? É fato que a TV é um excelente veículo para
a educação. Quanto mais ela puder ser usada com esses fins, melhor. Mas há ressalvas:
a primeira é que a televisão possui uma linguagem própria, esperada pelo
público, de forma que a educação na TV jamais deve ser encarada como uma aula gravada,
mas sim como a apropriação dos recursos de linguagem audiovisual sobre
determinado tema. O segundo ponto é que mesmo o que não foi produzido com a
intenção de ter uma serventia educativa formal pode ser de grande valor
simplesmente por trazer novos debates, olhares e culturas, ou seja, contribuir
com a pluralidade – isso sim, algo que poderia também ser lembrado nos debates
sobre qualidade.
Dentro desta diversidade, sem julgamentos morais, respeitando os
gostos mais “bregas” e dando espaço para a liberdade de expressão popular, é
claro que sempre se corre o risco de determinados excessos ou exposição de
pessoas. Neste caso, a própria diversidade de programação pode ser uma
resposta, porém, mais que isso, a principal resposta pode estar justamente na
educação. Não é à toa que um recente campo de estudos, a Educomunicação, tem
entre seus pilares a leitura crítica dos meios, ou seja: incluir no próprio
ambiente escolar a mídia de massa tal como ela é. Não apenas programas
educativos, mas aquilo que as pessoas veem em casa. E enfrentar isso com
discussões, análises, desconstruções. Entendendo como os programas são
produzidos, as novas gerações estarão mais preparadas para dialogar com a TV. Quem
sabe eles próprios não acabam educando a TV, garantindo uma programação plural,
com muitas pautas interessantes e estéticas inovadoras?
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