quarta-feira, 08 setembro 2010
 
 
 
Junho 2010

TV digital e cultura
Artigo de Newton Cannito

Por: Newton Cannito
Foto: Stock.xchng

TV digital, educação e cultura

O debate sobre TV Digital hoje ainda fica, na grande maioria dos casos, preso a falsas questões e a antigas dicotomias analógicas.

 

Um exemplo: ainda há quem acredite que a televisão vai virar internet. Esse é um raciocínio tipicamente analógico, pois é divergente e conflituoso. Não tem sentido pensar que a internet vai vencer a televisão, nem o contrário. Quem vai vencer é o conteúdo que souber trabalhar de forma convergente, atuando em várias mídias, inclusive as mídias físicas como livros, performances e aulas.

 

Outro potencial do digital é superar a dicotomia entre entretenimento superficial e profundidade educativa. A elite intelectual sempre clamou por uma televisão educativa. No entanto a televisão – tal como o cinema - não é o espaço apropriado para tratar os conteúdos da forma densa e profunda que a educação nos pede. A internet e os livros cumprem melhor esse papel.

 

A televisão está mais para circo do que para a escola. A televisão trabalha com o conceito de atrações visuais numa estética que foi teorizada pelo cineasta russo Sergei Eisenstein. Essa estética do espetáculo é muito criticada, mas pode gerar obras primas em todas as mídias. Basta lembrar: O Rei da Vela, de Zé Celso; os programas de televisão tropicalistas, como “Chacrinha” e “Divino Maravilhoso”;  e os filmes de cinema de Eisenstein.. Mesmo em nossos programas com conteúdo cultural e educativo temos que lembrar que a televisão é um circo eletrônico e deve usar da estética do espetáculo.

 

Além disso, o conteúdo na televisão costuma ser genérico, ou seja, não se aprofundar para atingir a vários públicos. Mas isso não é necessariamente ruim. O conteúdo genérico difunde um conhecimento que não se aprofunda em nada, mas gera muito conhecimento geral em várias áreas e um conhecimento em comum para o público alvo. Isso é importante para gerar coesão social. Além disso, o conteúdo genérico é adequado ao conhecimento multidisciplinar.

 

A grande maioria do conteúdo televisivo de hoje é ruim. Mas nem sempre é ruim pelos motivos que a elite os acusa. Tal como as artes populares foram atacadas desde sempre, os programas de televisão são acusados de serem antiéticos, grotescos, apelativos. Temos que ficar atentos, pois as vezes essas criticas manifestam apenas preconceitos contra o “populacho”.   O conteúdo televisivo deve saber ser genérico e espetacular sem culpa.  Tal como, aliás, sempre fez  as artes populares.

 

Por outro lado o conteúdo televisivo brasileiro dos últimos anos tem sido pouco inovador. É hora de mudar isso e a convergência digital é uma boa oportunidade.

 

A televisão não tem sempre a obrigação de ser educativa e nem precisa ser educativa o tempo todo.  Por outro lado a educação é uma tendência real, que desperta interesse no público atual. Por isso, podemos fazer conteúdos educativos adequados a mídia televisiva. E pensar ações educativas transmidiáticas.

 

As novelas e os realitys têm grandes potenciais educativos se pensados de forma transmidiática. O projeto de internet das emissoras ainda considera a internet como um lugar onde a rede de TV exibe seus próprios vídeos e, no máximo, coloca informações básicas sobre o programa (elenco, ficha técnica, etc.). Isso é um grande erro. Uma novela contemporânea deve ser pensada tal como “Lost” foi pensado: como um universo transmidiático. Isso é diferente de fazer conteúdo extra para o produto televisivo. A internet não é conteúdo extra. É apenas outra mídia, que tem outro tipo de conteúdo. O universo deve ser pensado com um todo desde o seu inicio, separando o que é conteúdo especifico e exclusivo de cada mídia. A internet pode ser preenchida por jogos de decodificação educativos, onde os jogadores participem de verdadeiros RPGs e onde tenham que estudar para que consigam desvendar mistérios expostos na narrativa televisiva. Também é possível pensar um reality totalmente educativo. Imagine um “No Limite” onde os participantes sejam universitários e para vencer as provas tenham que tirar dúvidas com seus professores. É uma forma de aproximar jogo de educação.

 

Por fim, a convergência digital exige que as várias mídias e televisões conversem entre si. Ao invés das TVs públicas e educativas tentarem competir com as “comerciais” elas poderiam ter estratégias convergentes. Um exemplo: um canal público pode exibir conteúdos educativos ligados ao produto de “entretenimento” de um canal comercial. Se isso for pensado desde o início o entretenimento não será apenas “entretenimento e será também educativo”.

 

A principal característica do digital é a convergência. A convergência não é apenas tecnologia. É também conceitual, de empresas, e de seres humanos.  E a convergência ocorre primeiro em nosso cérebro. Em vez de ficarmos presos a falsos dilemas e antigas oposições conceituais (com a oposição entre entretenimento e educação), temos que superar preconceitos e aprender a atuar juntos.   Esse é o grande desafio da Era digital.

 
Newton Cannito: Newton Cannito é Secretário de Audiovisual do Ministério da Cultura, autor do livro A televisão na era digital, publicado pela editora Summus, e autor do blog www.atelevisaonaeradigital.wordpress.com