quarta-feira, 08 setembro 2010
 
 
 
Fevereiro 2010

Oba, novidade!
Warde Marx fala sobre a invasão da tecnologia

Por: Warde Marx
Foto: Stock.xchng

Oba, novidade!

 

Ela vai pegar você. Seja por torpedo, depoimento, emeio, tuitada, escrépe (até jornal ou rádio). A novidade acaba alcançando a todos nós: saiu um aparelho novo! Ele faz de tudo: acessa a net, faz ligações telefônicas, sintoniza HDTV, toca música e blu-ray, serve de agenda, secretária, calcula calorias e, com o chip vermelho, faz sorvete de morango (o chip marrom faz de chocolate, mas só chega ao Brasil semestre que vem). Corra pra comprar – ou, ao menos, pra saber tudo sobre o treco e ficar sonhando e amargurando a impossibilidade de comprar a jóia. E transforme o aparelhinho (sim, outra vantagem é ser do tamanho de um botão) num lindo... sonho de consumo!

 

Reconheceu a situação? Apesar do tom irônico, é mais ou menos assim que acontece e ninguém está imune (nem eu, claro). Porém, há uma ou duas considerações que a gente pode fazer sobre essa volúpia high tech.

 

Lá pelo final dos anos 1970 começou-se a dizer algo como “informação será a mercadoria mais valiosa do futuro”. Ninguém entendia muito bem; mais valiosa que... sei lá... ouro?! É. Só que o futuro chegou. Hoje sabemos que informação, conhecimento, saber-antes-dos-outros é algo extremamente valioso. Como disse Francis Bacon, refletindo sobre a Ciência, lá no século 16: “Conhecimento, em si mesmo, é poder”. Informação é uma das bases do conhecimento e toda essa aparelhagem ultramoderna serve para veicular, distribuir, alastrar essa base.

 

O tal desejo insaciável pelas novas tecnologias midiáticas não é tão maluco ou inútil assim. Pode ser exagerado, mas há razão para existir.

 

A ciência continua a pesquisar novas maneiras de trabalhar a forma e a velocidade da informação. E a indústria condensa todos esses resultados de pesquisa em aparelhos cada vez menores e com menor custo (por mais caros que pareçam!). Parece que, a cada fornada de gadgets, agrega-se a eles uma função tão inovadora que provoca a súbita sensação de “oh-céus-como-é-que-vivi-sem-isso-até-agora-?”. Como tudo é oferecido como algo que vai suprir uma necessidade, desejar o tal brinquedinho é natural. A publicidade nos avisa que, finalmente, teremos a almejada qualidade de vida (e/ou diversão, dependendo da idade).

 

Porém, na ânsia pela novidade, acabamos perdendo algo pelo caminho, talvez o ponto central do problema. Veja: uma indústria quer a liderança do mercado. Despeja toneladas de produtos, os mais variados, na praça. A concorrência faz o mesmo. Para diferenciar-se dos outros, alguém oferece uma coisinha a mais (não tudo o que é possível; se não, o que lançar na próxima leva?). Todos seguem o mesmo percurso. Resultado: consumidor atordoado pela variedade, sem saber o que escolher,  opta pelo mais recente – cujo ineditismo durará uma semana, ou menos. Perguntinha: você usa TODOS os recursos de seu eletrônico de última geração, celular, por exemplo? Acho difícil. E isso faz pensar...

 

Se não esgotamos todos os recursos da mídia que nós mesmos desejamos e compramos e temos em mãos, será que já o fizemos em relação às coisas que já estavam por aí antes de nascermos? Refiro-me às “velharias”: livro, jornal, rádio, essas coisas. Você está ansiosíssimo para estrear o seu blog – afinal, todo mundo que é descolado tem um blog! Mas, já escreveu um artigo para uma revista (como este aqui, por exemplo)? Ora, um blog é isso, botar suas ideias a público. Como uma rádio funciona? E televisão, meu Deus, que acompanha a gente desde o colo da mãe! Como acontece com tanta coisa (até com pessoas...), você convive tanto com televisão que nem imagina o quanto ela pode ser criativa, independente, divertida e – atenção para a palavra mágica – inovadora! É isso: a gente nem se dá ao trabalho de descobrir as novidades daquilo que já está à nossa disposição. E se alguma coisa o desagrada num desses veículos de comunicação, que tal passar a influir, criando um grupo de pressão, a fim de que acertem seu programa favorito, sem tirá-lo do ar. Você pode passar a ter um mundo muito maior de opções! O mesmo vale para tudo, o que exige uma postura mais proativa – como qualquer coisa que valha a pena nesses tempos pós-modernos.

 

Enfim, sem querer dar conselhos a ninguém: não precisa ir morar numa caverna; você pode – e deve – continuar ligado em tudo o que acontece; mas, antes de se atirar num aparelho cuja maior vantagem é ser a novidade de hoje, que tal dar uma olhada em volta e procurar extrair o máximo de tudo o que a mãe-tecnologia colocou nesse mundão? Você pode começar a ter surpresas...

 

 

 

 
Warde Marx: é ator, diretor, professor e dramaturgo.